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Medo
Ana Maria Prandato - 22/05/2001
I - O monstro que mora no escuro
É noite, bem tarde. Não há mais ninguém em casa
e você está em paz.
De repente, alguma coisa parecida com um radar
interno faz com que seus olhos focalizem diretamente aquela figura horripilante e grotesca que vem saindo
das sombras sem um ruído sequer, na intenção de
agir despercebida...
Tarde demais! Você viu!!! E gelou! E já sentiu um
arrepio subindo pelas costas enquanto dava aquele
frio na barriga e um grito incontrolável escapava
da garganta...
Agora sim, piorou! Ela viu que você viu!!! E mudou,
rapidamente, a estratégia - partindo obstinada
em sua direção.
Pavor!!!
Enfrentá-la? Não vai dar!
Correr!!!
Você se tranca no quarto, coração acelerado...
"Esta porta não vai detê-la!" É só nisso que você
pensa.
Aquele macarrãozinho que você estava preparando
na certeza de comer feliz, provavelmente vai queimar
até que não seja mais possível salvar a panela, mas
você nem vai lembrar!
Quem se lembraria de uma coisa tão banal num
momento de tamanha ameaça? Ela está lá, do outro lado da porta! Até quando?
Você sente que precisa tomar uma atitude...
...Reza - pra que seja só um pesadelo. E, pra
confirmar, espia pelo buraco da fechadura...
Áiiiiiiiii... Está lá... Continua lá!
Se for inviável fugir pela janela, você vai começar
a perceber o quanto faz falta uma extensão do
telefone em cada cômodo, e passarão pela sua
cabeça mil maneiras de chamar o zelador ou de
acordar algum vizinho...
Mas o fato é que você está só, perdidamente só - ou melhor - vocês estão sós, enquanto o mundo dorme... Você e a... barata!
* :) * :) * :) *
Com essa brincadeira, começamos a falar de um
assunto que mexe com todos nós, e às vezes mexe
seriamente - o medo.
É claro que fizemos aqui uma sátira, em muito exagerada;
diante de um inseto tão indefeso, ninguém reagiria
assim.
Será?
Se observarmos com atenção a nossa própria vida,
especialmente naqueles pontos em que ela está
insatisfatória, poderemos encontrar lá no fundo de
tudo entraves que, racionalmente, parecem insignificantes demais para o tamanho do estrago... Chegamos
a duvidar de que um motivo, aparentemente tão
pequeno, possa estar impedindo o fluxo natural
de realização em tantas áreas - como a profissional,
a financeira, a afetiva, a sexual - chegando, inclusive,
a provocar doenças.
Aí precisaremos considerar
que não somos apenas racionais.
Muitas forças
interagem dentro de nós, mesmo que não estejamos
pensando nelas, mesmo que não queiramos senti-las,
mesmo que as mantenhamos "no escuro". E o medo
vem batendo recordes nesse sentido.
II - Amigo ou inimigo?
O medo, como resposta a um perigo real ou
imaginário, é natural e tem função definida: a
preservação da nossa integridade, do nosso
bem-estar. É ele quem dispara nossos mecanismos
interiores, causando o aumento automático da
nossa força para que possamos optar entre fugir
ou enfrentar seja o que for que nos ameace.
Até aí é um processo saudável, comum a toda a
escala animal.
O problema todo começa quando passamos a ter
reações exageradas, desproporcionais, repetitivas
e restritivas, que desestabilizam nosso sistema emocional,
chegando a causar danos mentais e físicos -
e, conseqüentemente, dificuldades no nosso
relacionamento com o mundo.
Por isso mesmo, esse medo que se transformou
em doença vem sendo estudado cada vez mais
profundamente.
Casos graves podem necessitar de tratamento
médico ou psicológico especializado, se a pessoa
já perdeu todo o domínio sobre si mesma.
De qualquer forma, quando o medo deixa de
funcionar como um recurso natural para agirmos
em nossa defesa (enfrentando ou fugindo, mas tendo
como resultado uma sensação de alívio), ou
quando não conseguimos discernir se a ameaça é
real ou imaginária e sucumbimos, paralisados,
numa inércia incômoda e dolorosa, é bom
verificarmos se ele não está vindo atrelado a
velhas questões não resolvidas dentro de nós -
aquelas coisas que não temos muita coragem de
ver - e aparecendo como um monstro deformado,
infinitamente mais assustador.
III - Mil e uma utilidades
A História mostra que o medo vem sendo usado continuamente como instrumento de domínio, subjugando povos e nações, impedindo sua expressão e seu desenvolvimento; relações pessoais freqüentemente são ditadas pelo medo, também - quando as pessoas não podem demonstrar aquilo que realmente sentem, pensam e querem, sob a ameaça de perderem coisas que valorizam; infelizmente ainda vemos a própria Educação
(institucional e familiar) aplicando o medo como recurso
"formativo" - confundindo obediência com respeito, silêncio com satisfação, automatização com conscientização.
Mas, de tudo isso, talvez o mais triste seja o fato de que
muitas vezes reproduzimos internamente essas mesmas
ordens de repressão que deploramos - e o fazemos
contra nós mesmos.
Aparentemente estamos nos protegendo, evitando
sofrimentos e repetições de dores passadas - então
impedimos a realização das nossas próprias vontades,
nas quais ficaram registrados fatores de risco.
Ficamos surdos a elas, achando que assim tudo estará
para sempre resolvido.
Mas a vida não pode ignorar e nem apoiar esse nosso
medo de viver, e os cutucões começam - e vão se
intensificando, até que o desconforto seja tanto que
tomemos alguma atitude em nosso favor.
IV - Medo do quê?
Vamos voltar à nossa sátira inicial e brincar
mais um pouquinho, aproveitando o que pode haver
de engraçado nesse campo assustador.
Há pessoas que, declaradamente, morrem de
medo de barata, né? Quando se deparam com
uma, nunca se sabe qual dos lados vive o maior
drama...
E há ainda aquelas em que esse medo só é
suplantado pelo verdadeiro pavor de que
ocorra um confronto desses em público...
Numa noite quente, por exemplo - a roda
de amigos ao ar livre, o bar lotado, as
paqueras - e eis que surge... ela! Barata!!!
O grito, o pulo, a cadeira caindo de um lado,
a mesinha virando de outro... O vexame!!!
Parece que assim fica mais claro que alguns
dos nossos medos são reações que
automatizamos, enquanto há ainda os que são
desdobramentos - quando passamos a temer
as reações dos outros (Como ficará a nossa
imagem? O que é que vão pensar de nós?).
Sejam quais forem os medos que temos, é importante
considerarmos que eles só têm alguma utilidade
legítima como sinalizadores de um possível perigo.
Quando passam a funcionar como repressores e
limitadores, são apenas expressões mórbidas de
violência - declarada ou camuflada - e isso pode custar
caro.
Todo este assunto é bem vasto, e vimos
apenas alguns ângulos dele, aqui. Ainda assim,
acreditamos que já dê
pra começarmos a encarar nossos medos
de uma forma diferente - não mais como
vítimas de monstros que nós mesmos
criamos, e nem como crianças ingênuas
que tapam os olhos com as mãozinhas
e acreditam que, com isso, ficaram invisíveis...
Finalmente, a Metafísica recomenda que troquemos o
medo pela prudência, e contribui ainda mais
afirmando que ter medo é acreditar no mal.
Que tal refletirmos sobre isso e passarmos agora um "antimedo"
no nosso "sistema" de vida, especialmente
naqueles "arquivos" mais íntimos?
Pode ser que encontremos aquele bendito
"fio da meada" que estamos procurando há
tanto tempo...
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