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A casa de três portas - Um conto metafísico Inspirado no exercício metafísico com o mesmo nome.
Adaptação de Ana Maria Prandato - 05/05/2001
Um fotógrafo viajou por vários dias até chegar ao
pequeno povoado, que era o seu destino.
Primeiro foi o avião, com o qual deixou para trás a grande
e moderna cidade onde vivia. Depois foram ônibus,
carros e outros pitorescos meios de transporte dos
quais precisou se valer pra atingir aquele lugar distante
e isolado, que já parecia ser o fim do mundo.
Até uma travessia de barco ele fez, e completou seu
trajeto montado, desajeitadamente, no lombo de uma
mula.
Chegou então, finalmente! Cansado, sim, mas feliz.
Estava realizando um projeto de anos. Desde que
ouvira falar daquele lugar desconhecido onde,
afirmavam, as pessoas viviam muito mais tempo do
que o considerado normal, convivendo em harmonia
com uma natureza especialmente bela e desfrutando
de um ângulo privilegiado da Terra, do qual podiam ver
o Sol nascer e se pôr numa amplitude magnífica,
ah!, desde esse dia ele sonhou com as fotos que
poderia fazer ali - e com o sucesso que poderia obter,
ao publicá-las para o mundo.
Munido de equipamento avançado e possante - o que
havia de melhor em câmeras e lentes - tratou logo de
conhecer tudo.
Com o passar dos dias, ele ficava cada vez mais
encantado! Havia beleza por toda parte. Além das
belezas naturais, as pessoas eram bonitas - como
eram bonitos, também, os trabalhos que elas faziam:
utilidades, produzidas artesanalmente, com um capricho
e um requinte dignos de exposições.
E tudo ia muito bem, até que voltaram os sintomas de
uma antiga doença que o perseguia, e que seu médico
já havia dado como extinta.
"Agora sim!" - pensou ele. Sem hospitais, sem helicópteros
para socorro urgente, sem sequer um telefone! "Como é
que vai ser?"
Nem médico havia ali. Seguindo a sabedoria de seus
ancestrais, curavam pequenos machucados e
eventuais desarranjos da saúde com chás e pastas
feitas de folhas, flores e raízes.
Como seu estado piorava, levaram-no até a pessoa
considerada a mais sábia entre todas, e o tratamento
recomendado por ela foi perturbador: "Saindo do
povoado na direção da floresta, você encontrará a
casa de três portas. Ali receberá o seu remédio, mas
só se estiver na porta certa, na hora da entrega."
Não havia o que escolher, e estava ele em frente à
tal casa. Três portas, realmente. Chegando pertinho,
viu que em cada uma delas estava escrita uma palavra:
"Passado", "Futuro"... e a terceira estava bem apagada,
impossibilitando a leitura.
Sem saber direito em qual entrar, lembrou-se: "Ali receberá
o seu remédio, mas só se estiver na porta certa, na hora da entrega." Como o remédio chegaria - ele já estava começando
a acreditar - deduziu que a porta certa só poderia ser a do futuro. Claro! E entrou.
Era uma sala ampla, cheia de luzes tão fortes que ofuscavam
a visão.
Uma sensação estranha se apossou dele. Tudo era
fantástico demais, um cenário riquíssimo, mas incompreensível.
Teria piorado tanto, a ponto de perder a lucidez? Seriam
alucinações causadas por aquela febre intermitente?
As paredes eram revestidas de espelhos, que pareciam feitos do mais puro cristal. Viu-se refletido neles, mas, confuso, notou que seu reflexo não correspondia aos seus movimentos... Aos poucos, a situação se invertia: sua imagem refletida é que se movimentava,
enquanto o seu corpo sentia tudo - sem mover um único músculo! Viu-se subindo numa escada imensa, com grande esforço, e - de repente - viu a escada sumir sob seus pés, experimentando o pavor de cair sem ter onde se agarrar.
Assustadíssimo, teve a certeza de que estava participando
de algo incomum quando recebeu a primeira mensagem telepática.
Mas ele nem acreditava em telepatia!!! Sentiu-se tão desconfiado
quanto o seu avô, que ainda não acreditava em Internet...
A mensagem foi breve e clara: "Essa escada representa suas
ilusões". Ah, não era possível... Teriam posto algum
alucinógeno na sua água?
Sem querer encarou um outro espelho e, chocado, viu-se velho, doente e sozinho... Passou a sentir fortes dores, enquanto sua
mente era tomada por pensamentos tristes; queixas de traição,
abandono, ingratidão, falsidade; desejo de ser amado e
acolhido e, ao mesmo tempo, a conclusão amarga de que
nenhum ser humano é digno de confiança.
Uma angústia espessa parecia sufocá-lo, quando recebeu a
segunda mensagem: "Esse é o futuro que você está construindo com seus medos". Não, era ruim demais! Trocaria o medo pela prudência... estaria atento quanto às ilusões... e queria sair dali.
Ao voltar pra fora, parecia aguardá-lo nova comunicação, desta
vez num tom desconcertante: "Você não estava na porta certa
para receber seu remédio. Uma última tentativa será feita mais tarde".
Sentia-se mal. Precisava de um alívio urgente e, mais uma vez tendo de decidir em qual das portas iria entrar, achou que
poderia encontrar sua cura procurando no passado o motivo
da sua doença.
A sala, agora, era atravancada e sombria. O ar era pesado.
Havia espelhos, também, mas estes pareciam embaçados -
não refletiam as imagens com muita nitidez.
Quando forçou a vista, viu que estava certo: os espelhos exibiam, realmente, cenas da sua vida - como num filme já deteriorado, que estivesse sendo rodado continuamente, sem ninguém no comando do projetor... Entre cortes, falhas e sombras, passava e repassava aquela fita... Na maior parte do tempo, o que ele sentia era um desconforto doloroso a oprimir-lhe o peito. Mágoas, revolta, culpa, decepções, humilhações, ressentimentos, perdas - a maioria dos temas era assim. E ele, cada vez mais desolado. Até que...
Num impulso, saiu da prostração em que caíra. Aproximou-se
do espelho, fixou o olhar e, como se tivesse parado o filme com
um clique, pôde ver claramente aquela figura tão querida...
Seu coração se abriu, como se estivesse sorrindo, mesmo, e o que ele podia perceber agora era um sentimento alegre... alguma coisa bem parecida com felicidade...
Puxa! Aquele rosto... a mesma luz! O mesmo jeito de sorrir, de olhar... A mesma alegria de estar junto!
Teve a nítida impressão - quase certeza - de que poderia
conversar com ela ali, naquele instante! Podia senti-la tão
viva, tão receptiva, tão presente... Desejou profundamente
abraçá-la - e o impacto do seu corpo contra o vidro frio fez
com que as lágrimas fossem caindo, espontâneas, até que
esgotassem todo o choro reprimido há anos.
Ficou assim, sem saber por quanto. O silêncio, as
sombras... Não quis mais olhar para o espelho, onde as
projeções se repetiam... repetiam... repetiam... Nenhuma mensagem.
Levantou-se do chão onde estava sentado e, inexplicavelmente, sentiu-se forte. Afirmou pra si mesmo que nada daquilo existia mais, na realidade. Tudo já havia passado, e ele vinha
carregando todas aquelas impressões dentro de si, num
sofrimento inútil. Nada mais poderia ser modificado, ou
evitado; nada poderia ser feito de outra maneira.
Transpôs a porta, e o ar fresco que havia fora aumentou o seu
bem-estar. Lembrou-se "dela", e novamente pôde sentir o
coração sorrindo. Essa era uma lembrança que ele queria
guardar.
O momento terno foi surpreendido por outra daquelas comunicações telepáticas: "Mais uma vez, você não estava
na porta certa. Agora terá de descobrir o seu remédio
sozinho."
Ficou atordoado. O que era tudo aquilo que estava acontecendo?
Que estranho lugar era aquele, que estranha gente, que estranhos
costumes?
Bem, tudo parecia estar mesmo perdido. Se havia, de fato,
algum remédio capaz de curá-lo, ali, as oportunidades lhe
escaparam. Já se surpreendera tanto, já perdera tanto do
senso de real que até então sustentara, que resolveu
encarar o que quer que houvesse por trás daquela última porta.
Nada. Nenhum espelho, nenhuma imagem, só luz... Uma
claridade viva, convidativa, e um sentimento bom de
liberdade - uma intuição forte e tranqüilizadora de que era ali
que tudo acontecia - o fazer e o desfazer, o pegar e o largar, a
escolha e a criação.
Quanto mais ele se percebia ali, maior era o ânimo que vibrava
no seu corpo todo. Teve fome, e riu - mas esqueceu da fome totalmente quando a cabeça já ia a mil, cheia de idéias, de projetos, numa vontade urgente de criar. Pensou que podia aproveitar os últimos raios do Sol para fotos belíssimas, e saiu apressado.
Quando a porta bateu por trás das suas costas, alguma coisa se
desprendeu dela - como fosse uma poeira há muito acumulada -
e a inscrição talhada na madeira era agora inconfundível: "Presente".
O olhar, treinado para captar belezas, estava ainda mais sensível.
O homem conquistara de volta tesouros, bens preciosos.
Entre eles, a consciência de si mesmo, do seu tempo, do seu momento. A consciência da sua própria força, e da sabedoria
sempre presente no seu coração.
E, dentro do coração, a certeza de estar curado - de tudo!
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